sexta-feira, 20 de Junho de 2008

EXPOSIÇÃO DE SARA & ANDRÉ INAUGURA HOJE ÀS 22H


SARA & ANDRÉ
20 Jun > 31 Jul


Com exposição na galeria marcada para o mês de Junho, Sara & André resolveram ir de férias! Talvez não tenham resistido ao tão desejado sol que finalmente se revelou no céu português, talvez tenham ido marcar presença nas inaugurações do "Allgarve", ou então apenas se estejam a manter o mais fiéis possível ao seu desígnio de “fazer o mínimo possível”. Coube ao director resolver a tragédia: apresentar uma exposição de Sara & André sem ter obras dos artistas. Após uma curta negociação com os ditos, assim ficou oficialmente determinado, conforme se pode verificar no contrato à entrada: Jorge Viegas é o indigitado organizador desta mostra individual de Sara & André, não podendo ser imputada à dupla qualquer responsabilidade sobre ela. Partindo das anteriores propostas apresentadas pelos artistas, que questionam as noções de fama, autoria e trabalho, optou-se por seguir o modelo da Fundação Sara & André, recorrendo a outros artistas representados pela 3+1. Ana Pérez-Quiroga, André Trindade, Pauliana Valente Pimentel, Pedro Kaliambai, Susana Guardado e Yonamine, desde logo se mostraram solidários com a angústia do galerista e de imediato se prontificaram a realizar obras sobre a dupla para com elas preencher o espaço expositivo. Não fosse a sua solicitude, teríamos em pleno século XXI um remake não deliberado da famosa exposição/happening que Yves Klein realizou na Galerie Colette Allendy em 1957, intitulada “O Vazio”.

Pois bem, esta é a ideia, a ficção. E é com ela em mente, plenamente convencidos da veracidade deste relato que devemos encarar a exposição.

A verdade é que Sara & André estiveram sempre aqui!

Mas porquê, então, toda a encenação?
Tudo começou no ano de 2005, na exposição de finalistas do André (ESAD, Caldas da Rainha). Já acompanhado pela Sara, o seu trabalho final de curso foi uma obra que não poderia ser exposta ao lado das dos seus colegas, pois a sua realização só seria possível após a abertura da mostra – “Sara & André visitam a exposição” (vídeo). Esta impertinência escolar causou o efeito pretendido, gerando suficiente tensão entre alunos e professores para desestabilizar e questionar a orgânica académica, iniciando um ainda leve burburinho sobre a dupla.
Quando no ano seguinte concorreram ao prémio Anteciparte, Sara & André apresentaram-se na capital e a um público tão mais vasto quanto desconhecido como “Very Important People”, perseguidos por pretensos paparazzis; artistas consagrados para quem a fama é parte do dia-a-dia. Num prémio dedicado a jovens artistas, que ali encontram muitas vezes uma primeira hipótese de reconhecimento, a dupla baralhou a ordem habitual do sistema dando um salto temporal ficcional sobre o “período de luta” que constitui o início de carreira.
Cansados das luzes da ribalta, os artistas recolheram-se no backstage para então dar início a um novo projecto: a Fundação Sara & André. A criação desta instituição teve origem nas inúmeras obras que outros artistas, reverenciando a sua celebridade, lhes vinham a oferecer. Pelo menos, é o que rezam os anais da sua constituição. Mas não podemos descurar o facto dela ter surgido precisamente no momento alto das polémicas em torno do aparecimento de outras duas entidades dedicadas à arte contemporânea: Fundação Berardo e Ellipse Foundation. Edificação satírica ou posicionamento na linha da frente, a Fundação Sara & André surgiu no país certo à hora certa. Os trabalhos que compõem a sua colecção são sempre fruto de ofertas ou encomendas a outros artistas para produzirem obras acerca da dupla.
Poder-se-ia considerar esta proposta como uma atitude egocêntrica, um desejo obsessivo de se fazerem retratar/representar por outros olhos, uma necessidade endémica de possuir a sua própria imagem. Todavia, há mais para além desta leitura simples, pois mais do que uma apresentação de representações, uma mera galeria de retratos, as obras da Fundação obrigam a um questionamento da ideia de autoria. Elas não só lhes pertencem (direito de posse) como geralmente são deles (direito de autor). A encomenda é quase sempre acompanhada de um contrato em que o artista “produtor da obra” abdica do seu direito autoral sobre ela. Desta forma, elas passam também a ser uma criação Sara & André. Os artistas coleccionam a sua própria obra, ainda que não a tenham produzido, possibilitando a coexistência entre a vontade de não fazer (ou fazer o mínimo) e o crescimento do corpo de trabalho. Em última análise, deixando de lado as demais implicações desta atitude no sistema artístico vigente, pode encontrar-se aqui uma economia do fazer plenamente equilibrada e eficaz, na qual a quantidade percentual de pensamento investido é inversamente proporcional à energia física dispensada, sem que com isso sofram os dividendos materiais.

Se neste ponto já se instalou a confusão, considere-se então a exposição na Galeria 3+1. Ao propor a outros artistas da galeria que elaborassem obras sobre si e para si, sem no entanto descurar o seu processo de produção ou o layout da exposição, Sara & André acrescentaram mais valências às suas personalidades artísticas: primeiro artistas, depois coleccionadores e agora também curadores e “tema” da exposição.
Sara & André armadilham a arte por todas a frentes possíveis, fazendo-lhe um cerco camuflado e aparentemente passivo que procura nas brechas a hipótese de avanço. Empunhando como armas a ironia e a sátira auto-referencial, conjugadas com um profundo conhecimento da história da arte e uma atitude quase diletante, Sara & André não pretendem trilhar uma revolução mas antes manter-se num estado de permanente guerrilha. A sua vitória reside mais na possibilidade de questionar o sistema artístico contemporâneo do que em conquistá-lo. Trata-se portanto de pôr em causa os papéis interpretados pelos diversos agentes artísticos confundindo-os e reformulando-os; de usar o questionamento como método, a pergunta como única solução possível.

Acerca do seu livro “Um, nenhum e cem mil”, Luigi Pirandello comentou: “O aspecto trágico da vida está nessa lei a que o homem é obrigado a obedecer, a lei que obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum e cem mil, mas a escolha é um imperativo necessário.” Sara & André fogem à lei, funcionando como um, disfarçando-se de nenhum e reivindicando a possibilidade de ser vários. Talvez porque, à partida eles sejam pelo menos três: ela, ele e os dois.



Rita Sobreiro
Junho 2008

Ver crítica de Lígia Afonso na ArteCapital: http://www.artecapital.net/criticas.php?critica=189


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